A sigla ESG ganhou popularidade no mercado em 2020 e, embora não seja novidade, sua relevância vem crescendo cada vez mais entre empresas e investidores. Entenda como os critérios ESG – Environmental, Social and Governance podem podem fazer a diferença nos negócios no futuro do planeta.

Sintetizando objetivamente, ESG é um conjunto de práticas ambientais, sociais e de governança que pode ser usado para guiar investimentos e escolhas de consumo focadas em sustentabilidade. Se você vem acompanhando as notícias do mercado, percebeu que essa sigla vem sendo cada vez mais citada e, que inclusive algumas empresas tem vinculado o bônus de seus executivos a essas metas. Siga nossa trilha de conteúdo para saber tudo sobre o tema.

O que quer dizer a sigla ESG?

O termo ESG tem sido usado para se referir a práticas empresariais e de investimento que se preocupam com critérios de sustentabilidade. A sigla vem do inglês “Environmental, Social and Governance“, que em português pode ser traduzido como ambiental, social e governança. A adoção dos critérios ESG representa uma verdadeira mudança de paradigma nas relações entre as empresas e seus investidores, já que práticas tradicionalmente associadas à sustentabilidade passaram a ser consideradas como parte da estratégia financeira das empresas.

Nesse cenário, os indicadores ESG são usados como métrica para nortear boas práticas de negócios. Alguns aspectos observados quando se fala em ESG são os impactos ambientais e sociais da cadeia de negócios, as emissões de carbono, a gestão dos resíduos e rejeitos oriundos de determinada atividade, questões trabalhistas e de inclusão dos trabalhadores e a metodologia de contabilidade, dentre outras. Tudo isso ganha força dentro de um contexto em que grandes empresas têm suas ações listadas em bolsas de valores e há cobrança por parte de acionistas e fundos de investimentos por práticas que garantam a sobrevivência de uma empresa a longo prazo.

As grandes instituições têm interesse na rentabilidade das empresas das quais são acionistas e por isso os investidores passaram a aumentar a cobrança pela adoção e divulgação de práticas de negócios baseadas em ESG, já que a falta de compromisso ambiental tem sido vista como um risco crescente para a sustentabilidade do sistema financeiro global. Empresas e investidores mais atentos já perceberam que a sobrevivência de seus negócios depende da continuidade da espécie humana, fortemente ameaçada pela crise climática iminente.

Ao mesmo tempo, os chamados investidores pessoa física, cada vez mais comuns nas bolsas de valores pelo mundo, analisam esses relatórios e as estratégias de ESG adotadas pelas empresas para escolher qual o direcionamento de seus aportes. Para quem se preocupa com o meio ambiente, o ESG é uma boa forma de acompanhar as práticas de governança e sustentabilidade de uma empresa, verificando se os valores que ela defende e pratica correspondem aos seus.

O ESG tem grande impacto em como uma empresa é vista, independente de seus resultados financeiros, em um cenário em que o propósito de uma empresa e seus valores tem sido muito valorizado por investidores e também pelo consumidor final. Assim, existe um novo paradigma de negócios em implementação nas empresas, sobretudo as de capital aberto, na quais o desemprenho nos critérios de ESG pode fazer toda a diferença na cotação de mercado da empresa, além de influenciar na votação dos acionistas.

Assim, as práticas Environmental, Social and Governance” (ESG) trazem oportunidades para as empresas. Além de mitigar riscos e gerar valor no longo prazo, é possível integrar o ESG com estratégias corporativas, melhor governança e maior comunicação entre os acionistas e partes interessadas. Adotar práticas de ESG exige adaptação das empresas a processos mais sustentáveis e práticas tradicionalmente ligadas à Economia Circular, o que pode ser uma boa forma de atrair o público crescente interessado no consumo consciente.

Qual a origem do ESG?

A sigla ESG surgiu pela primeira vez em um relatório de 2005 intitulado “Who Cares Wins” (“Ganha quem se importa”, em tradução livre), resultado de uma iniciativa liderada pela Organização das Nações Unidas. Na época, 20 instituições financeiras de 9 países diferentes – incluindo do Brasil – se reuniram para desenvolver diretrizes e recomendações sobre como incluir questões ambientais, sociais e de governança na gestão de ativos, serviços de corretagem de títulos e pesquisas relacionadas ao tema. A conclusão do relatório foi que a incorporação desses fatores no mercado financeiro gerava mercados mais sustentáveis e melhores resultados para a sociedade.

Entendendo a sigla ESG

A sigla ESG une três fatores que mostram quanto uma empresa está comprometida em ter uma operação mais sustentável em termos ambientais, sociais e de governança. Cada letra tem um significado:

E (environmental, em inglês, ou ambiental, em português)

E (environmental, em inglês, ou ambiental, em português)

A letra E da sigla se refere às práticas de uma empresa em relação à conservação do meio-ambiente e sua atuação sobre temas como:

  • Aquecimento global e emissão de carbono;
  • Poluição do ar e da água;
  • Biodiversidade;
  • Desmatamento;
  • Eficiência energética;
  • Gestão de resíduos;
  • Escassez de água.

S (social, em inglês e português)

S (social, em inglês e português)

Já a letra S diz respeito à relação de uma empresa com as pessoas que fazem parte do seu universo. Por exemplo:

  • Satisfação dos clientes;
  • Proteção de dados e privacidade;
  • Diversidade da equipe;
  • Engajamento dos funcionários;
  • Relacionamento com a comunidade;
  • Respeito aos direitos humanos e às leis trabalhistas.

G (governance, em inglês, ou governança, em português)

G (governance, em inglês, ou governança, em português)

Por fim, a letra G se refere à administração de uma empresa. Por exemplo:

  • Composição do Conselho;
  • Estrutura do comitê de auditoria;
  • Conduta corporativa;
  • Remuneração dos executivos;
  • Relação com entidades do governo e políticos;
  • Existência de um canal de denúncias.

Práticas de ESG que podem ser adotadas por empresas

A mudança de paradigma trazida pelo ESG fez com que as empresas percebessem que a adoção dessas práticas já não é mais uma escolha, seja por conta da pressão dos fundos de investimento, seja por conta dos investidores ativos. Mas equilibrar a busca de valor no longo prazo com a adoção de práticas que podem prejudicar os lucros de curto prazo não é tão simples e, nesse contexto, existem algumas boas práticas de ESG surgindo. Um artigo da Harvard Law School reuniu algumas delas:

Engajamento proativo dos acionistas

Um programa proativo de engajamento dos acionistas permite que uma empresa de capital aberto entenda as questões mais importantes para seus investidores, incluindo os passivos. Já não é suficiente centrar a divulgação para os investidores em torno de resultados trimestrais e decisões de compra e venda. A comunicação com os acionistas deve atender às mudanças na base de investidores e ao maior foco no valor de longo prazo, incluindo questões de ESG. Esse engajamento dos acionistas, construído ao longo de anos de discussão, é essencial para entender as políticas e expectativas de voto, moldar as ações de sustentabilidade e construir uma preparação para o ativismo da empresa.

Abraço à causa da sustentabilidade

O foco aprimorado em sustentabilidade e ESG é uma prioridade para muitos investidores e é importante que eles não estejam apenas na agenda de discussão, mas sim integrados à estratégia da empresa como um todo. A tendência é que as empresas de sucesso abracem as questões ambientais e sociais como parte da criação de uma estratégia de negócios sustentável e parte integrante de seu perfil de governança. Da mesma forma, as empresas devem compreender como se comparam às expectativas de seus pares e dos investidores. Assim como as empresas bem governadas há muito prepararam ‘avaliações de vulnerabilidade’ para o ativismo dos acionistas, as empresas agora também devem se concentrar em suas vulnerabilidades no que se refere ao ESG.

Construção de um conselho ‘adequado para o ESG’

O trabalho de um diretor nunca foi tão desafiador e demorado, especialmente com o surgimento do ESG, já que as principais empresas precisam de um conselho de diretores engajado e ‘adequado para o propósito’ com a experiência e perspectivas para fornecer supervisão apropriada, fazer perguntas difíceis e se envolver com investidores institucionais em tempos bons e desafiadores. É crucial que os conselhos tenham ampla experiência, gama de recursos e capacidade adequada para executar seu dever. Da mesma forma, é imperativo que as empresas comuniquem claramente a força das habilidades, experiências e processos de seus conselhos.

Aprimoramento da governança ESG interna

A governança da sustentabilidade não deve se limitar à diretoria, e um programa de ESG bem elaborado deve incorporar controles focados na sustentabilidade, indicadores chave de desempenho (KPIs) e relatórios em toda a organização. Todos os níveis de gestão devem estar envolvidos na incorporação da sustentabilidade no dia a dia da empresa. Isso requer uma cultura empresarial em que a sustentabilidade e o propósito não sejam uma reflexão tardia, mas sejam essenciais para a existência da empresa.

Comunicação das iniciativas relacionadas à sustentabilidade

Não é mais a norma dispensar categoricamente as dúvidas relacionadas à sustentabilidade, em qualquer setor. A questão agora é como responder, e é imperativo que as empresas aprimorem proativamente sua divulgação, em vez de permitir que sua classificação seja dada por terceiros (como acontece com os fundos de investimentos). Como ainda não existe uma regulamentação ou padrão de divulgação amplamente aceito para dados de sustentabilidade, a elaboração dessas métricas permanece um desafio. Alguns padrões que costumam ser analisados por investidores são os emitidos pelo Sustainability Accounting Standards Board (SASB) e as recomendações da Task Force on Climate-related Financial Disclosure (TCFD, em tradução livre: Força-Tarefa sobre Divulgação Financeira Relacionada ao Clima). Essas são algumas estruturas para as quais as empresas podem olhar na hora de mapear sua jornada de sustentabilidade.

ESG no Brasil

No Brasil, os parâmetros ESG estão em seu estágio inicial. As áreas que cuidam do assunto nas empresas estão em desenvolvimento, mas investidores globais localizados fora do Brasil já estão integrando esses parâmetros em seus processos de investimento. Historicamente, investidores têm se concentrado em assuntos reputacionais e escândalos de corrupção. Consequentemente, a principal área de interesse para investidores brasileiros tem sido a governança corporativa.

Essa abordagem, contudo, começa a evoluir, e empresas que não consideram questões ambientais e sociais podem se submeter a impactos negativos em curto, médio e longo prazos. Pesquisa recente do Instituto CFA sugere que nos próximos cinco anos, até 2022, os temas ambientais e sociais se tornarão significativamente próximos dos relacionados aos de governança em termos de importância.

O Brasil tenta um movimento na direção certa. A legislação garante proteção ao meio ambiente e existem uma série de iniciativas apoiando o desenvolvimento. Porém, há uma oportunidade para ir além. Companhias precisam entender seus impactos e a sua dependência da natureza e da sociedade e gerenciar riscos e oportunidades relacionados, enquanto se comunica de forma consistente com investidores.

Diretrizes da TCFD

Nesse contexto, as recomendações da Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD, na sigla em inglês) são um passo crucial. A TCFD ajuda empresas a dirigir atenção aos riscos físicos e de transição e oportunidades relacionadas às mudanças climáticas e como relatar esses riscos e oportunidades, bem como os esforços para gerenciá-los, para agentes financeiros.

Com o apoio do Conselho Mundial Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD), o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) realizou recentemente uma série de discussões e workshops para aumentar o entendimento das empresas brasileiras sobre essa transparência e as mudanças no gerenciamento de riscos, enquanto esboça potenciais soluções.

Com o CEBDS, a implementação da TCFD tem sido explorada na Câmara Temática de Finanças Sustentáveis, que inclui bancos públicos e privados (Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Santander, Caixa Econômica Federal, BNDES, BACEN, Banco Votorantim), mas tem sido abraçada por empresas que identificaram a TCFD como prioridade para este ano.

Em abril de 2021, o CEBDS, a Bloomberg e o WBCSD convocaram um diálogo para empresas do agronegócio sobre impactos relacionados a mudanças climáticas, bem como as mudanças associadas à implementação das recomendações da TCFD. Os temas-chave surgidos foram finanças e resiliência. Como as soluções inovadores podem ser comunicadas e financiadas? Como pode o agronegócio se preparar, adaptar e responder às mudanças climáticas?

O que ficou claro nas tendências globais recentes, bem como nas conversas nos workshops das últimas semanas é que os negócios que são líderes globais estão integrando riscos ESG, oportunidades, impactos e dependências relacionadas no processo de tomada de decisões e estão avisando seus stakeholders que eles estão em um caminho estratégico.

Olhar para o futuro

O crescimento do ESG entre investidores e empresas está relacionado a uma evolução sobre a materialidade. Uma série de fatores de sustentabilidade corporativa e de mercado, historicamente vistos como não financeiros, agora são vistos como motivadores materiais do desempenho dos negócios. Alguns exemplos são os riscos trazidos pelas mudanças climáticas, os custos relacionados ao uso de derivados de petróleo, escândalos corporativos e denúncias motivados por falta de equidade de gênero, salarial e outras, vazamentos de dados e outros pontos. A lista é crescente e os investidores estão cientes de que todas essas questões influenciam no valor de mercado e na avaliação de uma empresa.

Fundos que investem exclusivamente em negócios vistos como sustentáveis são uma tendência crescente e, durante a Pandemia do novo coronavírus, se provaram mais resilientes que o restante do mercado de capitais. Isso se relaciona diretamente ao fato de que empresas preocupadas com práticas de ESG têm uma visão de negócios de longo prazo e tendem a ser menos frágeis em momentos de crise.

O ESG engloba um conjunto de práticas que também podem ser observadas pelos consumidores na hora de escolher os produtos que consomem. O que antes talvez fosse visto como idealismo ou ambientalismo, agora interfere diretamente nos resultados de uma empresa, já que os consumidores estão cada vez mais atentos à sustentabilidade e interessados em conhecer os impactos de toda a cadeia de produção. Relatórios de ESG dificultam práticas como o greenwashing e, além de informarem os potenciais investidores, são uma forma a mais para a fiscalização por parte do consumidor final.